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  • Henrique Girardi

Olhar macroeconômico

A economia brasileira vem passando por grandes dificuldades nos últimos anos. O PIB vem desacelerando desde 2011, com uma queda acentuada a partir de 2014 (0,50%) e especialmente em 2015 (-3,55%) e 2016 (-3,31%). Os anos seguintes (2017, 2018 e 2019) foram de crescimentos respectivos de 1,06%, 1,12% e 1,14%. Crescimentos mínimos.


Ano passado com a pandemia, que abalou todo o mundo, a queda do PIB brasileiro foi de -4,10%. De certa forma, quando divulgado foi visto como “melhor que o esperado”. Houve uma certa amortecida com o auxílio emergencial, que se demonstrou extremamente importante. Alguns profissionais estimam que a redução poderia ter sido na ordem de 9 a 11%. Outro viés é, que considerando a desvalorização da moeda brasileira frente ao dólar, o PIB brasileiro em dólar chegou a cair 22,7% em relação a 2019. O impacto da crise sanitária e econômica do coronavírus foi expressiva, impondo muitas dificuldades aos mais vulneráveis e escancarando ainda mais a desigualdade no país.


O país vinha de recessão, crise e crescimento mínimo e entrou em 2020 sem sequer ter recuperado e superado as dificuldades anteriores, que já eram muitas. Esse é um dos pontos fundamentais na leitura e entendimento da crise atual.


Com o agravamento da pandemia no início de 2021, as perspectivas econômicas se deterioraram.

A projeção do PIB para 2021 vem passando por uma nova revisão. No final do ano de 2020, a projeção para o PIB de 2021 era de 3,40%. A última projeção divulgada no Boletim Focus foi de 3,22% (19/03).


· O IPCA (Índice de Preços no Consumidor) está projetado para 2021 em 4,60%, também superior ao projetado em outras semanas, como 3,63% há 4 semanas e 3,98% há 1 semana.


· Após seis anos de queda, o Banco Central comunicou em 17 de março a elevação da taxa de juros anual de 2,00% a 2,75%. A Taxa SELIC projetada ao final do período (2021) é de 4,50%.


· A taxa de câmbio (R$/US$) ao final do período (2021) projetada em R$ 5,30.


· A Dívida Líquida do Setor Público (% do PIB) está projetada em 65%, ante 64,44% há 1 semana e 63,90% há 4 semanas.


Na perspectiva social o Brasil pode ser visto em extrema dificuldade, com o aumento da desigualdade. É um dos aspectos mais fortes com toda a crise sanitária e econômica. O cenário brasileiro chamava atenção antes da pandemia, agora a situação é ainda mais crítica. Junto com a queda da economia brasileira nos últimos anos veio o aumento no desemprego, chegando em 2020 a 14% e a projeção de 15% para 2021.


No ambiente de negócios, a pandemia do coronavírus vem apresentando muitos desafios como a adaptação ao home office, as medidas de isolamento, as dificuldades logística, e os problemas setoriais que são generalizados e atrapalham muitos segmentos. Entre os mais afetados estão o comércio e o serviço.


Entre os aspectos envolvendo tecnologia, cabe destacar a adaptação ao trabalho homeoffice e o próprio processo de produção das vacinas (o mais rápido da história).

Espera-se que a corrida pela vacina e consequentemente sua efetivação seja o estímulo essencial para a recuperação da economia global. Junto a imunização, os estímulos fiscais por todo o mundo devem promover a recuperação econômica. Por enquanto ainda incerta quanto ao seu início.


O Brasil contabiliza mais de 300 mil óbito por covid-19. O atual momento é o mais crítico desde o início da pandemia em março de 2020. A média móvel dos últimos dias chegou pela primeira vez acima de 3 mil casos por dia. Alguns profissionais projetam que os casos fatais da pandemia de Covid-19 devem alcançar a marca de 500 mil pessoas em breve, nos próximos meses. No momento o Brasil atingiu 10,3 milhões de vacinados, cerca de 4,91% da população. O país tem ainda a receber até dezembro aproximadamente 545 milhões de vacina, com cronograma de vacinar todos os grupos prioritários no primeiro semestre de 2021. No cenário internacional nota-se uma evolução mais rápida na imunização em países como Israel (60%), Reino Unido (36%), Chile (26%) e Estados Unidos (21%).


Os países que conseguirem antes essa efetivação terão vantagens diante dos países que por ventura tenham mais dificuldade neste processo e demorem mais. Alguns países podem, inclusive, ficar em isolamento por mais algum tempo.


No cenário internacional, apesar do avanço de alguns países na vacinação, a recuperação econômica ainda é modesta. Entende-se que é preciso ter uma recuperação mínima para que globalmente os comércios, as indústrias, os serviços, e as cadeias globais de produção retomem e se estabeleçam novamente.


Nos Estados Unidos, o governo anunciou no início de março um novo pacote de estímulos que chega a US$ 1,9 trilhão. Nos últimos dias o Federal Reserve (FED) promoveu recentemente um corte de 1 ponto percentual nas taxas de juros do país, ficando assim entre 0% a 0,25%. É o segundo corte divulgado pelo FED em duas semanas. A redução é uma medida emergencial no sentido de sustentar a economia americana em meio à pandemia. O pacote de estímulos foi uma ação coordenada anunciada também por Bancos Centrais do Reino Unido, Japão, Zona do Euro, Canadá e Suíça.


As medidas econômicas e sociais adotadas pelo governo com a Medida Provisória de redução de carga de trabalho e salários e o auxílio emergencial para as pessoas mais necessitadas foram efetivas em seu propósito. Sem essas medidas os resultados seriam ainda mais negativos e expressivo para a população.


Com a piora da crise um ano após seu início, a expectativa agora no Brasil é quanto as próximas semanas, a evolução da doença no país, as novas medidas que devem ser anunciadas de cuidados, prevenção, e de auxílio para pessoas e empresas.


Como os pacotes de estímulos devem estimular e promover uma recuperação mais robusta da atividade a médio e longo prazo é provável que ainda ocorram novos anúncios durante o ano.


O Governo Federal brasileiro, além do enfrentamento a crise sanitária do coronavírus e suas consequências econômicas, ainda tem o desafio de promover reformas e adotar outras ações. Em destaque a reforma administrativa, reforma tributária e plano de privatizações.

Como fator mais recente, a nova mudança no Ministério da Saúde é a grande novidade no Governo Federal, com a saída de Eduardo Pazuello e chegada de Marcelo Queiroga. A expectativa agora é se haverá mudanças e avanços mais rápidos no processo de vacinação e combate a pandemia no país.


A expectativa é grande para as próximas semanas e meses. O PIB de 2021 está em jogo nos próximos meses, a depender da crise e por quanto tempo mais a economia ficará nesse nível de atividade. A tendência, considerando que deve demorar ainda para a crise passar e a economia se recuperar, é que o PIB em 2021 deve apresentar um crescimento pequeno de 2 ou 3%. A taxa de desemprego deve realmente ser um pouco mais elevada, chegando em 15 – 16%. Acredito que nesse ritmo a inflação deve aumentar e passar as projeções divulgadas no Boletim Focus.


A sensação é que apenas em 2022 a economia deve ter uma recuperação mais forte. O cenário nacional é ainda mais complexo do que antes da pandemia em todos os aspectos, em especial, com a deterioração da crise fiscal, alto índice de desemprego e baixa produtividade. As decisões do governo federal e a governança entre união, estados e municípios, serão decisivos e fundamentais para o país nos próximos anos.